
Escrito por Cabugi Dom, 12 de Dezembro de 2010 08:00
Diante do tiroteio em que se viu envolvido o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, a presidente eleita, Dilma Rousseff, inverteu o processo de escolha dos ministros e decidiu esperar mais uns dias para definir se o transfere para a Saúde ou o mantém onde está. Ontem, ela se dedicou a avançar nas negociações com o PSB. Depois de jantar com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, na noite de quarta-feira, ela recebeu ontem, na Granja do Torto, além de Eduardo, o vice-presidente do partido, Roberto Amaral, e o governador do Ceará, Cid Gomes. A presença de Gomes foi a novidade e a certeza de que Dilma quer o deputado Ciro Gomes integrado ao governo. “Se ele não for ministro, será um dos responsáveis pela indicação”, disse ao Correio um dos integrantes da equipe de transição.
A ideia de Dilma é fechar a composição dos aliados neste fim de semana para anunciar na segunda-feira um lote maior de ministros e, na quarta, concluir o desenho de pastas como a Saúde e demais ministérios da área social, a maioria destinada ao PT. No caso de Padilha, avisam integrantes da transição, ele continua como curinga da presidente eleita. Ontem, ele convocou entrevista para responder à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. O jornal estampou um documento com a suposta assinatura de Padilha para respaldar uma empresa de fachada na liberação de recursos no Ministério do Turismo.
“Jamais assinei esse documento, que destoa totalmente dos documentos daqui. Quero que a Polícia Federal apure até o fim quem colocou uma assinatura minha, escaneada, nesse documento, que apresenta sinais inequívocos de falsificação”, disse Padilha, que apresentou vários pontos de fraude na declaração, datada de 22 de março. Um deles no texto, que começa com a formalidade de “eu, Alexandre (…) Padilha, declaro (…) que a Inbrasil — Instituto Brasil de Arte, Esporte, Cultura e Lazer — vem funcionando nos últimos 3 anos de forma regular prestando relevantes serviços à população”.
Escrito em suposto papel timbrado da Secretaria de Relações Institucionais, traz telefones e e-mails incorretos — além de padrão gráfico diferente do utilizado pela SRI. O RG do ministro está errado. O CNPJ da empresa aparece como inválido. A assinatura, diz Padilha, foi escaneada. “Há diversos documentos assinados por mim na internet. Sou o principal interessado em saber quem montou esse documento, uma vez que não há registro de sua entrada ou saída da SRI”, diz Padilha. Uma ex-assessora da SRI, Crisley Lins, disse na reportagem de O Estado de S.Paulo que pediu ao ministro para assinar o documento em favor do Inbrasil. Hoje, trabalha com o deputado Paulo Cesar (PR-RJ), que destinou parte de suas emendas ao instituto para eventos. “Não há registro desse documento aqui na SRI”, disse Padilha, que, além de procurar a PF, abriu sindicância interna e aguarda o resultado.
Litígio
Padilha passa por esse tiroteio num momento em que é tido como um dos nomes próximos à presidente. Ele tirou férias para se dedicar à campanha e acalmar a guerra entre aliados em alguns estados. Não deixa de estar cotado para a Saúde, mas Dilma tem sobre a mesa o nome do secretário da Saúde da Bahia, Jorge Solla. E não desistiu de prestigiar o governador baiano Jaques Wagner. Para o Desenvolvimento Social, além de Teresa Campelo, que integra a Casa Civil, Dilma analisa o nome de Lúcia Falcon, secretária de Planejamento de Sergipe, que tem o nome em análise para o ministério encarregado do Bolsa Família, programa que tem maior apelo no Nordeste.
O senador eleito Wellington Dias (PI) voltou a ficar com as ações em baixa na bolsa de ministeriáveis porque Dilma não deseja sacar nenhum senador eleito do PT para compor o governo. Precisa da bancada intacta para não perder força e nem comissões técnicas.
O PRESTÍGIO DOS GOMES
Os Ferreiras Gomes continuam com prestígio diante da presidente eleita, Dilma Rousseff. Depois de um jantar fechado entre ela e o presidente do PSB, Eduardo Campos, o governador do Ceará, Cid Gomes, voou para Brasília ontem apenas para participar da reunião com Dilma, Campos e o vice-presidente do partido, Roberto Amaral. No encontro, ela ofereceu ao PSB os ministérios da Integração Nacional e a Secretaria de Portos. A secretaria continuará sob o domínio do Ceará, a quem caberá apresentar o ministro. A Integração deve ficar com Pernambuco, terra de Lula, governada por Eduardo Campos. E não está descartado um “algo mais” para atender Ciro Gomes e, no futuro, o Ministério da Pequena e Micro Empresa. O desfecho das duas horas de conversa entre socialistas e Dilma ficou para este fim de semana.
Eduardo Campos, Cid Gomes e Roberto Amaral chegaram juntos ao aeroporto de Brasília, pouco antes das 19h, vindos da Granja do Torto. Os deputados Beto Albuquerque (RS) e Márcio França (SP) aguardavam no saguão. Eduardo e Cid não tiveram tempo de passar todos os informes da reunião, porque tinham compromissos em seus estados. A tarefa ficou para Roberto Amaral, que se reuniu com os dois por quase meia hora. Saíram todos com cara de poucos amigos, especialmente Márcio França. O deputado, ex-prefeito de São Vicente (SP) e ex-líder do partido na Câmara, recebeu o aval dos colegas congressistas para assumir a Secretaria de Portos, com status de ministro. Agora, vê o cargo ficar sob o comando do Ceará.
O problema é que uma parte do PT paulista considera França tucano demais. E, para tirá-lo do páreo, Dilma decidiu prestigiar os Ferreiras Gomes. Afinal, ela gosta de Ciro, ainda que ele tenha insistido em ser candidato à Presidência da República contra ela. O PSB só abortou a candidatura numa votação no diretório. Pouco antes de embarcar para Fortaleza, Cid avisou a Eduardo Campos que entraria em contato tão logo tivesse definido o quadro com Ciro. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) está fora dessa composição porque Dilma já confirmou Luciano Coutinho no cargo.
Fonte: Do Correio Braziliense.
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